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comunidades isoladas

Das comunidades isoladas ... aos municípios autônomos.
 

 
Nas páginas anteriores, já tivemos ocasião de mostrar que o EZLN começou a ampliar-se e a consolidar-se na medida em que foi capaz de perceber que era necessário aprender a ouvir os indígenas, a viver com eles, a dialogar com as idéias e os valores de sua cultura milenar e, a partir disso, construir uma inserção ativa nas próprias comunidades indígenas. Este diálogo, nem sempre fácil, se realiza entre a organização político-militar e uma identidade cultural muito forte, moldada e alimentada de geração em geração através da transmissão de idéias, valores e vivências que constituem a base da vida e do trabalho da coletividade.
Antes mesmo da chegada do zapatismo, as comunidades já garantiam sua sobrevivência através da propriedade coletiva da terra, do trabalho pensado e realizado a partir das necessidades e do envolvimento de todos, de decisões tomadas por consenso nas assembléias comunitárias, de uma longa tradição de luta e resistência. Neste contexto, as lideranças são reconhecidas como tais por saberem articular o pensamento da comunidade, visualizar as necessidades coletivas e por mandar obedecendo às decisões da própria comunidade.
Ainda que haja diferenças entre uma etnia e outra, a prática da vida comunitária não tem nada de ideal, exige desprendimento e o melhor das energias de cada um dos seus integrantes. Ser indígena não é apenas sinônimo de ter nascido num determinado território e agrupamento humano, mas significa, sobretudo, escolher diariamente a vida em comunidade, se responsabilizar pelo outro, pelo futuro da coletividade. Isso exige sacrifício e, às vezes, cria conflitos internos com aqueles cujas atitudes se afastam da vida comunitária.
A inserção do EZLN neste contexto não se dá como absorção acrítica de idéias, práticas, valores e visões de mundo, e sim como um lento processo pelo qual ao incorporar a cultura indígena e a dialogar com ela é possível começar a criar nas comunidades a vivência de novas relações tanto a nível interpessoal, como no campo da economia e da política. Ao falar sobre isso numa entrevista à revista italiana Limes, o Subcomandante Marcos afirma: “É necessário dizer que, antes do zapatismo as comunidades indígenas, para sobreviver, seguiam o curso natural de sua história. Ao longo dos séculos isto se manifestou numa ferrenha resistência à colonização. Toda comunidade, todo vilarejo, vivia fechado em si mesmo sem nenhuma relação com os vizinhos. Eram quase como que pequenos Estados. A chegada do zapatismo criou a primeira ruptura. Começou a ter uma comunicação entre as comunidades e isto levou a desenvolver uma resistência regional, antes unindo vários vilarejos, e, em seguida,  etnias diferentes. Isto ocorreu nos dez anos que antecederam o levante de 1º de janeiro de 94. Em seguida, chegou a guerra e com ela os ataques das tropas federais em fevereiro de 95. Naquele momento ocorreu uma outra grande mudança porque as comunidades que já haviam optado pela resistência armada tiveram que desenvolver novas formas de vida para enfrentar as pressões do Exército federal que tinha entrado na Selva. Diria que estas mudanças podem ser resumidas em dois pontos. De um lado, procuramos ajuda nas organizações não governamentais nacionais e internacionais para garantir a sobrevivência dos projetos de desenvolvimento. De outro, começou-se a controlar muito mais o aspecto comunitário, ou seja a gestão coletiva dos recursos. O governo indígena tornou-se cada vez mais coletivo, partilhado, de forma a garantir que no interior das comunidades não houvessem desequilíbrios, ou seja, que a pobreza de alguns não significasse a riqueza de outros. Desta forma, em seguida, foi possível fazer com que as ajudas fossem distribuídas com equidade. Assim, foi se desenvolvendo um modelo alternativo àquele do governo. Vamos pegar o aspecto econômico: nas comunidades agora está crescendo a produção coletiva em prejuízo da individual”.
A inserção permite também avaliar através da prática e dos acontecimentos as formas de participação política existentes, o impacto e os limites das formas de luta já utilizadas, a fazer com que as pessoas aprendam a tomar coletivamente decisões estratégicas e não apenas circunstanciais, a formar novas lideranças, enfim, a amadurecer coletivamente o momento do levante armado. Mas isso não é tudo. “Nos contatos entre o EZLN e as comunidades as trocas acontecem em ambas as direções, o Exército Zapatista se transforma, mas também as comunidades se transformam e um dos problemas culturais é a maneira com a qual as mulheres são tratadas nos povoados. (...) Quando o EZLN, sobretudo as mulheres do EZLN, começam, direta ou indiretamente, a colocar em discussão a condição feminina, nas comunidades se criam desacordos, sobretudo por parte das autoridades religiosas: dizem que colocamos maus pensamentos na cabeça das mulheres e dos jovens”. [1]
A mudança de comportamento vai se desenvolvendo ao longo do processo de inserção nas comunidades. A este respeito, o comandante Tacho nos dá um exemplo do próprio processo pelo qual o papel da mulher ganha uma nova dimensão. “Quando começamos a falar com as pessoas do povoado, tínhamos que prestar muita atenção na hora de escolher com quem abrir o jogo: precisávamos saber quem era, como se chamava, o que queria. Sobretudo por causa das bebedeiras. Alguns gostam muito de beber e, às vezes, se embebedavam com os criadores de gado ou com os comerciantes; era difícil, tínhamos que prestar muita atenção. Foi aí que começamos a perceber que era necessário fazer participar as mulheres. Demos formação para as mulheres que eram uma espécie de enviado político e como já estavam conosco algumas companheiras indígenas e camponesas descíamos com elas nas comunidades e, de noite, em segredo, reuníamos as mulheres fora do povoado. Faziam de conta que iam buscar o milho, procurar lenha, mas, na realidade, iam para uma reunião. Foram elas que começaram a convencer os maridos a parar de embebedar-se. Em seguida, quando tínhamos duas, três, quatro companheiras numa comunidade, dávamos a elas a tarefa de escolher com quem trabalhar. Crescíamos pouco a pouco, até que, finalmente, um povoado inteiro estava conosco. Nos ampliávamos assim, de forma muito discreta, muito delicada, através de uma atividade realmente clandestina”. [2]
É sobre esta incorporação, ampliação e redefinição de valores, idéias, relações e formas de comportamento que, nas regiões rurais sob o seu controle, o EZLN cria e desenvolve a experiência dos municípios autônomos. Neles, as leis e os decretos do Estado não têm peso algum, as comunidades elegem livre e democraticamente suas lideranças que podem perder o mandato a qualquer momento, caso não cumpram as deliberações coletivas, as terras que antes do levante eram propriedade privada de alguns são expropriadas e utilizadas a serviço de toda a comunidade. Cabe aos municípios autônomos cuidarem da produção, da defesa, de fazer chegar os comunicados do CCRI da selva até a cidade mais próxima, de garantir as provisões ao grupo que se mantém como exército permanente, de organizar os serviços básicos, da vigilância e de todos os trabalho ligados à causa da revolução. [3] Uma vez libertado o território, a força militar do EZLN entrega às autoridades civis livremente eleitas a tarefa de organizar a vida naquela região, sem que haja ingerência do comando militar nas decisões da comunidade. [4] Por sua vez, “as autoridades de diversos povoados elegem o representante regional, depois várias regiões elegem o de área, depois o de etnia e os representantes de etnia vão nomear quem deve ir ao comitê”. [5]
“A autoridade zapatista pode ser criticada junto aos seus superiores: se a comunidade não estiver satisfeita com o seu responsável local, ela o denuncia junto ao responsável regional. É aberto um inquérito, o destituem, fazem uma assembléia e nomeiam outro. O mesmo acontece quando são os representantes locais a terem problemas com a autoridade regional, e assim por diante até a cúpula”. [6]
Ao mandar obedecendo não escapa sequer o Subcomandante Marcos. “Quando dizem: «Marcos é o chefe», não é verdade, eles é que são os chefes. Eu assumi o comando sobretudo naquilo que diz respeito às questões militares. Eles me disseram que eram pra falar porque eu sei falar espanhol. Os companheiros falam através de mim. São eles que dirigem, eles estabelecem os limites: «você pode dizer isto, aquilo você já não pode dizer; sobre isso você pode falar mais, sobre aquilo não». Eles são os meus chefes e eu tenho o dever de obedecer, eles decidem os limites”.  [7]
O mesmo acontece no momento da redação e aprovação dos comunicados: “A respeito dos comunicados emitidos pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena - Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (CCRI-CG do EZLN), vale a pena falar um pouco sobre como são produzidos estes pronunciamentos. Todos os comunicados firmados pelo EZLN são aprovados por membros do Comitê, às vezes pela totalidade deles, às vezes por representantes. A redação dos textos é um de meus trabalhos, porém o comunicado em si provém de dois caminhos.
	Um é quando membros do Comitê, ou o coletivo do Comitê, vêem a necessidade de pronunciar-se sobre algo, de «dizer sua palavra».
Então se propõem e se discutem os pontos principais do que se vai dizer e, com essas indicações gerais, me ordenam que faça uma redação. Depois lhes apresento o comunicado redigido, eles o revisam, tiram e acrescentam coisas e o aprovam ou rechaçam.
	O outro caminho é que, chegada a informação de distintas partes ou diante de algum fato que o mereça, e vendo a conveniência de nos manifestarmos a respeito, proponho ao comitê que emitamos um comunicado, redijo e apresento a proposta. Discute-se e se aprova ou rechaça.
 	Eu falei «rechaça»? Sim, ainda que as circunstâncias contribuam com a aparência de que o Subcomandante Marcos é o «cabeça» ou «líder» da rebelião, e que o CCRI é só «cenário», a autoridade do Comitê é indiscutível nas comunidades e é impossível sustentar uma posição sem o respaldo deste organismo indígena de direção. Várias propostas de comunicados que fiz foram rechaçadas, algumas delas «por serem muito duras», outras «por serem muito brandas», e algumas «porque mais confundem do que esclarecem». Também vários comunicados foram emitidos apesar das minhas objeções. Os exemplos não vêm ao caso, porém a avaliação dos meus companheiros de Comitê demonstrou-se correta no transcurso destes seis meses de guerra.
	Também existem os textos que costumo redigir para apresentar os comunicados. Neles estou mais «solto», porém a vigilância do Comitê se mantém. Mais de uma das «cartas de apresentação» mereceu a reprovação dos membros do CCRI”. [8]
	A criação dos municípios autônomos não é fruto de uma imposição arbitrária da cúpula do EZLN. Ela “tem sido o resultado de um grande consenso e acordo entre as comunidades que compõem esta região autônoma e que tem apoiado, de uma maneira ou de outra, as nossas organizações. Não cria divisões e nem usurpa funções. Ao contrário, nos une no mesmo esforço de superar a pobreza em que vivemos, é um esforço para unir-nos e construirmos nós mesmos nossa alternativa de futuro sem que seja necessária nenhuma forma de dependência. Nos perguntamos se, para isso, precisamos de autorizações e de permissões. O município tampouco se impõe e força a minoria que não está de acordo. Têm sido respeitados seus direitos constitucionais, assim como sua organização e filiação ao que corresponde às suas decisões”. [9]
	Nascidos para lutar por uma vida digna para todos, os municípios autônomos têm sido objeto de constantes ações repressivas promovidas pelos governos federal e estadual. Apesar da dureza dos enfrentamentos, das privações e até mesmo da necessidade de deixar suas terras devido à ocupação do exército federal, os municípios autônomos têm crescido e se multiplicado. A explicação para esta resistência que parece não conhecer limites nos é dada pelos próprios indígenas que os integram: “dizemos a vocês que as ações de repressão e violência empreendidas pelo governo desde o nascimento deste município são parte de uma ampla estratégia para acabar com a nossa tentativa de construir um futuro digno e justo para todos os nossos povos indígenas, para aniquilar o movimento zapatista e independente e para que entremos em conflito com nossos próprios irmãos indígenas que têm todo direito de não partilhar nossas idéias e reivindicações. Isso tem o objetivo de ocultar o verdadeiro conflito de uma vontade verdadeira de construir uma Pátria justa que reconheça e leve em consideração todos os mexicanos, que reconheça o nosso direito a construirmos o nosso futuro a partir dos nossos desejos e potencialidades, garantindo a diferença, porque somos povos diferentes, de criar a verdadeira unidade nacional através da união dos diversos futuros e esforços daqueles com os quais partilhamos e formamos a Nação mexicana. Isso está enfrentando a falta de razão de um governo e de uma estrutura social que diz representar o povo, mas que, na verdade, só representa um grupo de poderes econômicos e políticos que tem um projeto econômico único, um projeto neoliberal que impõe aos demais mexicanos os interesses e os projetos que beneficiarão este mesmo grupo.
	Também queremos dizer ao governo e aos militares que são inúteis suas tentativas de aniquilar este e outros municípios autônomos. É tudo inútil porque, à diferença de seus municípios, os nossos não são feitos de funcionários e edifícios, a eles não se impõem as leis e os projetos que nada têm a ver com a nossa realidade, culturas, necessidades e potencialidades sem que haja consenso de nossa parte, não é um modelo que funciona só para alguns que dizem representar-nos. 
Nossos municípios autônomos são a esperança de um futuro digno para todos, um futuro baseado na educação voluntária e no respeito às diferenças, incluindo a dissidência. É um futuro que está em consonância com as nossas necessidades, culturas, esperanças e projetos comuns; é um futuro que temos em comum e, por isso, não está nos edifícios e suas leis e sua força não repousam num Estado repressor. Ao contrário, a sua força repousa no coração digno daqueles que o desejam, na maioria de nossos irmãos em mais de 100 comunidades; está na dignidade dos que lutam para vencer sem precisar pedir licença e depender da vontade dos outros. Suas esperanças e possibilidades repousam na nossa história comum, na nossa língua, nos nossos costumes, nos nossos conhecimentos ancestrais, no trabalho quotidiano e comunitário, no desejo de criar um México do qual não sejamos excluídos.
Não estamos nos edifícios que destruíram e sim em cada milharal e potreiro, em cada rio e senda, em cada casa e comunidade daqueles que, como nós, têm o coração verdadeiro e respeitam o irmão diferente; por isso podemos ter e superar a fome e a necessidade de refugiar-nos, agüentar a repressão e a destruição, podemos estar nas montanhas ou na comunidade, no sofrimento e na alegria de cada um de nossos companheiros, ainda que estejam em Cerro Hueco. [10]
Se querem realmente acabar como nosso sonho, terão que aniquilar-nos em cada um desses lugares, terão que minar nossos corações para acabar com a nossa força e possibilidades, terão que apagar do mapa nossos povos e culturas, terão que reinventar a história. Por isso, poderão acabar com os edifícios, perseguir o nosso conselho, fazer-nos prisioneiros, imputar-nos mil delitos e, inclusive, até matar-nos, mas como é possível acabar com a força e a vontade desse futuro que já é nosso?”  [11]
	Nos detivemos um pouco mais na questão dos municípios autônomos e nas relações que existem entre os vários níveis de representação das comunidades não porque elas representam uma forma perfeita de democracia ou um modelo que pode ser aplicado a qualquer sociedade, em qualquer lugar do mundo, e sim para evidenciar dois aspectos da luta zapatista que nos parecem relevantes. O primeiro deles é que “deveria ser a sociedade a controlar o governo e não o governo a controlar a sociedade, como afirmam os teóricos do salinismo que já esqueceram o «salinismo». (...) Para eles a sociedade tende naturalmente para o caos e o governo tem que vigiar para que não se desagregue. Portanto, faz-se necessário um governo forte, que a controle. Para nós, ao contrário, é o governo que tende espontaneamente para o caos, para a ditadura, o autoritarismo, as práticas antidemocráticas e a corrupção, e é a sociedade que deve obrigá-lo a prestar contas. Obrigá-lo a mandar obedecendo, como nós dizemos”. [12]
O segundo, é que à diferença de outros movimentos revolucionários que almejam o poder para, em seguida, construir uma nova ordem social, o zapatismo percorre o caminho inverso: desenvolve e fortalece novas relações sociais, se prepara para defendê-las a qualquer preço e faz da vida no interior das comunidades o embrião de um modelo de sociedade cuja força questiona e ameaça a ordem vigente, dialogando com as mais diferentes culturas, realidades e movimentos. A base da sua relação com o México e com o mundo não é o discurso que ainda vai se tornar fato e sim o fato que serve de base ao discurso e, por ser parte da realidade, faz com que o próprio discurso seja mais verdadeiro, vivo, palpável, até mesmo para quem mora em outros continentes.
Isso explica o poder de mobilização que o próprio EZLN tem em relação à sociedade civil. Depois da Convenção Nacional Democrática de agosto de 1994 (que reuniu mais de 7 mil representantes vindos de todos os Estados da federação mexicana), da Consulta Nacional pela Paz e a Democracia de 1995 (na qual o EZLN recolheu mais de um milhão de respostas através de 10 mil mesas coletoras instaladas em todo o país), do 1º Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neoliberalismo em julho de 1996 (que contou com a presença de 5 mil pessoas de 42 países), em março de 1999 foi a vez da Consulta Nacional pelo reconhecimento dos Direitos dos Povos Indígenas e pelo Fim da Guerra de Extermínio. Contando com o trabalho de 4.996 delegados zapatistas e das 2.358 brigadas organizadas pela sociedade civil em função do evento, com o apoio de 1141 organizações e sem nenhuma divulgação nos meios de comunicação, a Consulta conseguiu recolher 2 milhões 854 mil e 737 votos. [13]
O futuro reserva outros acontecimentos para os quais a participação e o envolvimento da sociedade civil serão determinantes para que a liberdade, a democracia e a justiça possam se tornar realidade para todos.



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